Vi essa postagem no Blog http://ipcdec.blogspot.com.br/2011/01/fazenda-das-palmas-em-aracruz-es-brasil.html
Achei super interessante vale a pena ler.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Esta é a terceira e última postagem comemorativa da Semana da Consciência Negra – na última semana de novembro de cada ano - , na qual procuramos nos atualizar em relação a escravidão negra no Espírito Santo, especificamente no município de Aracruz.
O Imperador D. Pedro II que se movimentava freneticamente por todo País , incentivando a fundação de colônias de povoação, chegou em 1860 em Santa Cruz, com o objetivo de “distrair as tendências que se manifestam nas Províncias do Norte e calar nos clamores contra a centralização”(Coutinho, 2006: 197, vol.I).
Quando entramos no baú da história de Aracruz, identificamos como nossa principal referência histórica a Fazenda das Palmas.
A partir dos anos 50 do século XIX, foi o berço da imigração italiana no Estado e do Brasil e também o berço da industrialização capixaba. No primeiro caso, devido a 1ª. leva de colonos italianos que ali chegaram em 1874 e, no segundo, devido a sua “gigantesca fábrica de açúcar”, uma indústria açucareira montada em 1890-1891, por uma empresa francesa, que produziu em volume até para exportação,contam os historiadores.
A sinergia gerada por esses dois empreendedores, sem dúvida causou grande impacto na formação do povo, movimentando em sua engrenagem o trabalho conjunto de várias raças, com destaque para os escravos, negros e o branco imigrante italiano, inclusive com técnicos estrangeiros.
Tal homeostasia se evidencia em nosso cotidiano quando se olha a cor da nossa própria pele resultante desse encontro das raças: “o amorenado”, eis aí a verdadeira etnia brasileira - ou seja, de origem e cultura comuns - , como classificou Darcy Ribeiro. Somos o resultado secular dessa conjunção carnal, como ele bem salientou.
A face do povo é o espelho do resultado desses fatos históricos: a presença física de seus descendentes (brancos, negros, mulatos, “amorenados”) e do patrimônio histórico material e imaterial conservados para a posteridade ( templos, fazendas, rios, objetos de arte, iconografia, e manifestações religiosa e folclórica). A tal ponto que o romance Karina, da escritora Virginia Tamanini, que narra as atividade de Tabachi – o responsável pela primeira leva oficial de emigrantes para o município- ,”parece mais realidade do que ficção de romance”(Cavatti: 1973, p. 17).
Os registros da escravidão negra são identificáveis, especialmente, nas obras de historiadores locais que retratam a imigração italiana para o Estado – alguns deles explicando a sua própria descendência - , nas décadas que antecedem a sua apoteose final – a abolição em 1888.
Se diz que a história é a versão dos vencedores sobre os derrotados , no nosso caso, estes últimos – os ameríndios e negros como raças subjugadas - constituem-se simplesmente apêndices desses registros históricos.
Infelizmente, a etnografia sobre a escravidão negra ainda é um baú de enigmas no Brasil, a começar com o ato insensato do Ministro da Fazenda Rui Barbosa, que no inicio da República ordenou que se queimassem todos os arquivos sobre a escravidão, como se fosse possível apagar, dessa maneira , uma parte da história do País construída pelos braços e a cultura dos afro-brasileiros.
Livro do historiador aracruzense (vols. I e II) de José Maria Coutinho, pesquisa para doutorado na Universidade da Califórnia (USA) |
Consultamos vários obras para a pesquisa do tema. Entre elas, duas obras importantes da história local: História do Povo de Aracruz(2006: volumes I e II) de José Maria Coutinho e Faça-se Aracruz , Maurilen de Paulo Cruz(organizador), historiadores que tenho a honra de conhecê-los. Esses autores recorrem com maestria a fontes primárias preciosas, como o depoimento de descendentes dos primeiros imigrantes, evidenciando claramente a escravidão e a imigração estão presente ainda na memória oral do povo aracruzense.
Faça-se Aracruz, de Maurilen Cruz e Escravidão e Abolição no Espirito Santo, da historiadora Maria Stella de Novaes. |
Recorremos também às obras A Escravidão e a Abolição no Espírito Santo, de Maria Stella de Nova e História da Imigração Italiana no Espírito Santo, de João Batista Cavatti. A exceção desse último, os demais estão disponíveis naBiblioteca Municipal, localizada no Edifício Ravena, no centro da cidade. Alguns exemplares da Revista Nossa História e Revista História da Biblioteca Nacional que trataram do tema foram consultadas em nossos próprios arquivos. Darcy Ribeiro, com o seu O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil, foi nossa principal fonte teórica.
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Sede da Fazenda das Palmas(12/2010) |
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Senzala |
A FAZENDA DAS PALMAS. Que tem sobrenome italiano, nasceu no Estado ou mesmo de outra regiões, como o Sul do País, talvez desconheça que suas raízes começaram na Fazenda das Palmas. Se houver dúvida, é só consultar a relação dos nomes do primeiros imigrantes, na lista no final desta postagem.
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Vista estrada que liga a Fazenda ao Rio Piraqueaçu |
A Fazenda das Palmas, que dista 3 km da sede municipal, foi o cenário de êxitos e fracassos de dois importantes empreendedores no século XIX: Pietro Tabachi e Aristides Guaraná.
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Pintura de Tabachi e sua esposa, na na Secretaria da Cultura. |
A Tabachi coube o mérito de ter construído ali o primeiro elo de ligação entre as raças subjugadas e o branco europeu, acolhendo a primeira imigração oficial de colonos italianos no Espírito Santo e do Brasil, em 1874. Assim, pioneiramente, ele pôs em prática o que só seria feito alguns anos depois, por centenas de latifundiários de São Paulo que trouxeram lavradores europeus para suas terras ao pressentir os estertores do regime escravocrata.
Coube a Guaraná, na qualidade de representante oficial do Governo Imperial, o prosseguimento do trabalho de acolhimento para mais outras três levas de imigrantes italianos “que chegavam para as diversas outras colônias da Província” e, posteriormente, a instalação do maior empreendimento industrial capixaba da época: o Engenho Central Guaraná, fabricante de açúcar , a partir de junho de 1880 (Maurilen, p.196).
Os ameríndios e os negros já estavam incorporados à propriedade como trabalhadores, antes da chegada os imigrantes. Em 1856, o município tinha 2.837 habitantes, sendo 2.586 (91,2%) homens e mulheres livres e 251 indivíduos(8,8%) escravos (Coutinho: 2006, p. 188, vol I). Desde a metade do século XIX, o há registros também, além de escravos, de trabalhadores índios, mulatos (negros com brancos), caboclos (brancos com índios).
O Imperador D. Pedro II que se movimentava freneticamente por todo País , incentivando a fundação de colônias de povoação, chegou em 1860 em Santa Cruz, com o objetivo de “distrair as tendências que se manifestam nas Províncias do Norte e calar nos clamores contra a centralização”(Coutinho, 2006: 197, vol.I).
Com Províncias em pé -de-guerra com o Império em décadas anteriores, brigando pela separação, devia andar muito preocupado mesmo. O Império já tinha enfrentado várias insurreições, se ficarmos só aquelas com idéias republicanas foram: Confederação do Equador(1824), Revolução Farroupilha(1835-1845) e a Revolução Praieira (1849). Além do mais, quatro anos depois já enfrentaria uma nova refrega - a Guerra do Paraguai – que iria até 1870.
O Imperador descreveu Santa Cruz em seu roteiro de viagem, como “uma vila alegre, à margem direita do rio (Piraqueaçu), com casas térreas pequenas e a maior parte cobertas de sapé” (Coutinho, idem). Em seguida, prossegui a sua viagem até Linhares. Era uma região dominada pelos temíveis índios Botocudo, a partir da foz do Rio Doce, e que tinham hábitos de antropofagia coletiva, e que só foram exterminados mais de cem anos depois, em 1935, depois de declarada oficialmente uma guerra contra eles, por D. João VI em 1809.
O Imperador descreveu Santa Cruz em seu roteiro de viagem, como “uma vila alegre, à margem direita do rio (Piraqueaçu), com casas térreas pequenas e a maior parte cobertas de sapé” (Coutinho, idem). Em seguida, prossegui a sua viagem até Linhares. Era uma região dominada pelos temíveis índios Botocudo, a partir da foz do Rio Doce, e que tinham hábitos de antropofagia coletiva, e que só foram exterminados mais de cem anos depois, em 1935, depois de declarada oficialmente uma guerra contra eles, por D. João VI em 1809.
Saindo ileso daquela jornada, e certamente tomou consciência do perigo que tinha passado, cinco meses após a sua visita, o Imperador mandou da Corte, no Rio de Janeiro, sinais de reconhecimento, reforçando a segurança dos colonizadores na região: a Lei Provincial no. 21 de 28 de julho de 1860 criando a Comarca de Santa Cruz, com jurisdição sobre os municípios de Reis Magos (hoje Nova Almeida), Santa Cruz e Linhares, com sede na cidade de Santa Cruz.
Com esse status a economia do município deslanchou. Sete anos depois – 1867 – já ocupava a sexta posição em importância, atrás apenas da Capital, Itapemirim, São Mateus, Cachoeiro de Itapemirim e Benevente (hoje Anchieta).
A passagem do Monarca sem dúvida ajudou o empreendedor Tabachi, na região desde 1851. Ele já se dedicava à derrubada de jacarandás, madeira altamente lucrativa e com certeza o principal objetivo do seu empreendimento comercial. Tinha feito uma proposta ao governo imperial para implantar um colônia agrícola capaz de abrigar 50 famílias de imigrantes e solicitava e, em troca desse serviço, o direito de derrubar 3.500 árvores de jacarandá. “A proposta era singular, tendo em vista que ela partia de um particular. Até então, os empreendimentos de colonização eram patrocinados diretamente pelo Império, sem intermediação da iniciativa privada”(fonte: http://www.woydt.be/genealogie/g18/g18x/18xxtapi01.htm, acesso em 14/01/11, as 16:00)
Sua solicitação demorou onze anos para ser atendida. Em 1871 um aviso imperial autoriza Pietro Tabachi a importar imigrantes italianos para a sua propriedade.Dois anos depois, esse contrato é renovado, com aumento do número de famílias para 70, ele segue imediatamente para a Europa para realizar o seu sonho. A colônia que fundaria seria batizada como “Nova Trento”, hoje município de Fundão, em homenagem a Trento, sua terra natal.
Assim em 1874, um total de 386 colonos italianos da região do Tirol, acompanhados de um médico (Pio Lamana), um padre (Dom Domenico Martinelli) e um auxiliar (Pietro Casagrande), a bordo do brigue-barco “Sofia” desembarcam no Porto de Vitória, em 24 de fevereiro. Seguiram depois para a Colonia “Nova Trento”, de propriedade de Tabachi, em Santa Cruz, onde chegam em 06 de março de 1874. (Coutinho: 2006, p. 194-195, vol. I e pg. 617, vol II). Por ser esta a primeira imigração oficial, Aracruz pode ser considerado o berço da imigração italiana no Espírito Santo e do Brasil.
Após dez dias, vem para Santa Cruz a bordo do barco a vapor (patacho) nacional “Nossa Senhora da Penha”. Inicialmente, hospedando os colonos em sua Fazenda das Palmas, perto de onde surgiu Sauaçu (hoje sede do município de Aracruz), Pietro Tabachi intencionava levá-los para outra fazenda maior, onde instalaria a Colônia Nova Trento, localizada no território do, hoje, município de Fundão, a uma distância de seis horas de viagem a pé. Se projeto não deu certo porque a Colonia Nova Trento morreu antes de nascer. Cansados da viagem, os colonos achavam que a Fazenda das Palmas era o fim da viagem e dez dias depois da chegada já mostravam seu descontentamento, começando uma rebelião que durou meses até sua dispersão. (Coutinho;2006, p. 233, vol I).
Os imigrantes acusavam-no de não cumprimento das cláusulas do contrato,referentes a qualidade da terra distribuída, muito distante do local em que as famílias haviam sido hospedadas, cerca de seis horas a cavalo, especialmente a cláusula quarta que previa alimentação e moradia por seis meses após a primeira colheita (Coutinho: 2006, p.235). Há referência de que se impunha aos imigrantes um contrato com cláusulas severas, que os transformava praticamente em semi-escravos.
Um conflito se instaurou de maneira irreversível. Tabachi chegou a publicar anúncio num jornal de Vitória, em maio de 1874, ameaçando levar à Justiça quem contratasse os colonos que ele havia trazido da Itália. O que não impediu que gradativamente os imigrantes, com o apoio do próprio governo, tomassem outro destino. Uns foram para Rio Novo(hoje Rio Novo do Sul), outros para Santa Leopoldina, alguns fundaram Santa Teresa e, finalmente, um pequeno grupo se deslocou para o Sul do país. Apenas 20 famílias decidiram continuar com Tabacchi na Fazenda das Palmas.(Fonte:http://www.woydt.be/genealogie/g18/g18x/18xxtapi01.htm, acesso em 14/01/11, as 16:00
Diante disso, o empreendimento “Nova Trento” fracassou , “antes de nascer”, conforme assinala Coutinho (p. 240), porque estabelecida em Fundão, ficava longe da Fazenda das Palmas, isolada e localizada em ambiente hostil. Tabachi morre, em 23-06-1874, quatro meses depois de trazer a primeira leva de imigrantes italianos. Deixou um inventário que além de bens materiais (móveis e imóveis em várias regiões) , constavam ainda 91 cabeças de gado, 37 carneiros, 7 cabritos, 2 cavalos e quatro escravos. “A Fazenda das Palmas, vendida para o General Aristides Guaraná e sediou não apenas o novo Núcleo Colonial Santa Cruz, formado pela terceira leva de imigrantes italianos que chegam em 1877, com também o “Engenho Central Guaraná” (Coutinho: 2006, p. 240, vol I)
A segunda leva de imigrantes tiroleses da Itália a bordo do navio “Rivadávia” desembarcam no Porto de Santa Cruz, em 09 de maio de 1875, seguindo para o Núcleo Colonial de Timbuí, Santa Teresa e Santa Leopoldina. (Coutinho;2006, p. 617, vol III)
Em 1877, chega para morar em Santa Cruz, o General Aristides Guaraná, também conhecido como Coronel Guaraná, um herói da Guerra do Paraguai ( dez/1864 – mar/1870), onde foi Ajudante de Ordens do Conde d’Eu (marido a Princesa Isabel). Em 7 de setembro de 1877, ele é nomeado Diretor do Núcleo Colonial “Santa Cruz” , que mais tarde se tornaria o futuro município de Ibiraçu, com sede na Fazenda das Palmas .
Três anos depois (1880-1881), inicia a montagem do Engenho Central de Guaraná , considerado o primeiro estabelecimento industrial do Espírito Santo (Maurilen,p. 200).A fundação do Núcleo Colonial “Santa Cruz” em julho, ocorreu com a chega da terceira leva de 278 imigrantes italianos no vapor “Columbia”.
A quarta e última leva de 454 imigrantes ainda em 1877 chegou pelo vapor “Isabelle”. Nele veio o imigrante Antonio Musso, pai de Luigi Musso, prefeito de Pau Gigante (1897-1898), e avô de Luiz Theodoro Musso ( prefeito em 1948-1951), bisavô de Heraldo Musso ( prefeito em duas legislatura: 1977-1882 e 1989-1992) e três vezes deputado estadual.
A apenas dois meses da Abolição,há uma referência explícita à escravidão negra na Fazenda da Palmas, citada por todos historiadores, em 7 de fevereiro de 1888, ”sobre um grande castigo aos escravos dali” que resultou em ocorrência policial.
Eles recusaram os maus tratos – disciplina do tronco e do vergalho – se não executasse serviços extenuantes e penosos.O incidente ocorrido na fazenda Palmas, segundo a historiadora Vilma Almada é que retiraram-se pacificamente e sem armas todos os escravos da fazenda, como protesto em busca da liberdade e melhor tratamento, durante a ausência do General Guaraná, que tinha ido à Corte.No decorrer de três dias, os escravos retornaram e declaram dispostos a voltar ao trabalho, porém sem a bárbara disciplina do tronco e do vergalho.
Receberam ordem de fazer um roçado morro acima, íngreme e pedregoso. Finalizando o trabalho receberam ordem de prosseguir morro abaixo, um escravo reclamou que era impossível, o administrador mandou que outro escravo o castigasse com o vergalho. Todos se recusaram a fazê-lo. O administrador acompanhado de capangas, vendo-se desautorizado, ameaçou-os de morte quando formados dirigiam-se para o trabalho. Debandaram espavoridos. Foram, porém, perseguidos a tiros, ‘cacetadas’,‘facadas’, conforme o relato do escravo Manoel que ferido a tiros fora ouvido na Delegacia de Polícia. Os sobreviventes foram metidos no tronco. Cabe-nos ressaltar que toda essa confusão ocorrera no dia 7 de fevereiro, tudo por conta da imprudência de um feitor que, ante os novos tempos, não quis se render às exigências dos escravos.”
Em 1895 chega ao fim a saga dos imigrantes italianos para o Espírito Santo. Ela foi proibida pelo o Ministro Prinetti, das Relações Exteriores da Itália as devido as denúncias de péssimas condições de assentamento, doenças tropicais morte, e descumprimento dos contratos.
Prossegue a todo vapor o Engenho Central de Guaraná, montando em 1890-1891, por uma empresa francesa (Maurilen, p. 201).
“Produzia diariamente 200 a 300 sacos de açúcar cristalizado. Havia um depósito para 30.000 sacos”. Por se tratar de “um dos maiores empreendimentos industriais já registrados na história do Espírito Santo” , é uma” gigantesca fábrica de açúcar para abastecer até mesmo o mercado externo” (Maurilen, p. 200). Ele foi montado sob encomenda na França “onde o nome dos fabricantes de todos os aparelhos consta a seguinte inscrição que se lê numa das faces da grande chaminé de 30 metros de altura, gravada numa chapa de ferro: “Engenho Central – fundado pelo Coronel Dr. Guaraná – BRISSONEAU DÉROUALLE & ALSE LUTZ – Construtores, Nantes, França, ano 1890-1891”. (Idem, p. 201-202).
A indústria açucareira empregava 103 operários, tendo como “ diretor do Engenho o Sr. Francisco Janotta, hábil mecânico austríaco.”(Idem, p. 201-202). Essas referências citadas são do relato foi feito pelo padre Otávio das Chagas, Secretário do Bispo João Batista Correa Nery, durante uma viagem pastoral à região, em 16 de junho de 1900.
O empreendimento vai a falência em 1910,mas as razões não são mencionadas nos historiadores pesquisados. Em 1912, Guaraná hipoteca a Fazenda das Palmas e transfere residência para o Rio de Janeiro, para ocupar o cargo de “serventuário vitalício”, ofertado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, também seu companheiro de armas na Guerra do Paraguai. O notável herói brasileiro e aracruzense faleceu no Rio de Janeiro em 28 de dezembro de 1927. (Maurilen: , p. 200)
IMIGRANTE E CORONEL. A divinização do branco – especialmente o imigrante – é fato incontestável, o que corrobora o fato de que Aracruz, desde a sua fundação até hoje, sempre teve como seu principal mandatário um descendente de italiano.
Os imigrantes gozaram de acesso privilegiado à terra, por políticas do próprio Império, tornando-se assim o proprietário desse importante meio de produção. São eles que comandam a economia e política do município até hoje. Em 1876-78, no município de Santa Cruz, o branco já era o grupo dominante, “proprietário de terras e de escravos, aqueles que detinham qualquer forma de poder, fosse econômico, político, social, cultura, religioso ou racial.(Coutinho, 2006: 210, vol. I)
Nesse processo evolutivo, não faltaram as figuras dos “coronéis” - entre eles, o Coronel Guaraná, o Coronel Venâncio Flores e o Coronel Lamego, este comandou a política por mais de 40 anos durante a República Velha -, bem como as famosas “oligarquias políticas” , uma referência recente à alternância de poder o entre dois políticos locais, Primo Bitti (já falecido)e Heraldo Musso, ambos descendentes dos primeiros imigrantes: o primeiro foi prefeito municipal 5 vezes, o segundo duas vezes e mais três legislaturas como deputado estadual, os quais “ por meio de hábil estratégia política se alternaram no poder,nunca se enfrentando diretamente, mas através de prepostos, sempre indicando para sucedê-los candidatos que perdiam para o adversário mais forte”.( Coutinho, vol. I, p. 489). Uma alternância que durou 28 anos, só foi quebrada com a eleição do jovem candidato Luiz Carlos Gonçalves. Afastado da política por doença, Heraldo não deixou herdeiro para dar prosseguimento à saga política da família Musso.
Aracruz não fugiu à regra como exemplo de microcosmo de um biótipo presente também em outras regiões do País,no século XX, tão bem retratado em nossa literatura e teses acadêmicas. O fato é que muitos deles e seus descendentes se transformaram , primeiro em senhores proprietários de terras, e em outros regiões do País, em proprietários “feudais”, barões, viscondes no Império, dentro um uma sociedade escravagista. Depois, na República, em coronéis “políticos”.
Certamente não foi só a lábia de Tabachi que convenceu os primeiro imigrantes italianos a virem para o Brasil e que “acendeu nos corações de milhares de lavradores torturados por longos anos de pobreza, de flagelos de guerra, de doenças, de opressão fiscal, de enchentes destruidoras, a esperança de encontrarem no Brasil, a paz, a saúde, a riqueza”.(Cavatti, op cit, p. 16). O escritor Jorge Caldeira assinala nesse sentido que “A América era o lugar onde quem estava inserido num mundo feudal, europeu, preso pelas cadeias do Antigo Regime, que tinha que viver a vida inteira na posição em que nasceu, sai e vai construir um destino pelo seu trabalho e pela sua aventura”. (RHBN, ano 2, no. 24, p. 44)
O AMERÍNDIO. Quanto ao ameríndio e o negro ficaram sem acalantos, nem alcançaram título nobiliárquico, nem favores em relação à propriedade da terra - embora os primeiros ainda gozassem da posse e do usufruto da terra (poderíamos alegar por “direito divino” da mesma forma que fizeram as monarquias européias para justificar a sua existência e atos genocidas como colonizadores do Novo Mundo? ), antes de serem massificados e iludidos pelos jesuítas , até hoje sofrem toda espécie de genocídio e resistência ( Caros Amigos, ano XIV, no. 51, out/10 e Nossos Indíos Nossos Mortos, de Edilson Martins, 3ª. edição, CODECRI, RJ, 1981). Começou com as capitanias hereditárias, quando se concederam sesmarias a colonos em terras pertencentes aos índios.
Os primeiros jesuítas que aportaram em Aldeia Nova, em 1556, para catequizá-los e aculturá-los obtiveram relativo sucesso. “Amansaram” os Tupinikim e Guarani, cujos resquícios de etnia são ainda presentes em aldeias esparsas no município; se fossem temíveis como os Botocudos, que viviam mais ao Norte, a partir da foz do Rio Doce, teriam sido totalmente exterminados.
Aldeia Nova passou a chamar-se Aldeia Velha após 1580 e, Santa Cruz, desde 1848, foi elevada à condição de município de Santa Cruz, hoje Aracruz.
A povoação do Norte do Estado – aí incluído Aracruz – e outras regiões do Sul do Estado, só ocorreu depois do genocídio indígena. Não foi diferente também em outros regiões do País, porque o etnocídio passou a representar uma espécie de status da competência administrava dos dirigentes colonizadores. O Governador Geral do Brasil, Mem de Sá, foi considerado “um grande carniceiro dos índios”, quando se vangloriou, em carta enviada ao rei D. João III, em 1560, dos seus feitos no sul da Bahia, em Ilhéus, hoje região turística internacional:
Na noite em que entrei em Ilhéus fui a pé em uma aldeia que estava a sete légua da Vila...E a destruí, e matei todos os que quiseram resistir. Na vinda, fui queimando e destruindo todas as aldeias que ficaram para trás. Então se ajuntaram e vieram me seguindo ao longo da praia outros gentios. Lhes fiz algumas ciladas e os forcei a jogarem-se no mar. Mandei outros índios reunirem os corpos e colocá-los ao longo da praia, em ordem, de forma que tomaram os corpos (alinhados) perto de uma légua...Seis quilômetros de praia coberto de corpos de índios”(Coutinho: 2006, p. 119, vol I, apud documento da CNBB, Vitória, ES, “Informativo da Paróquia São Francisco de Assis”, Ano 2, No. 5, p. 5)
Os ameríndios não aculturados foram exterminados. No norte do Estado, resistindo à ocupação da terra e à sua escravização, os Botocudo foram honrados por uma “declaração de guerra” contra eles pelo Governo Imperial, em Carta-Régia, datada de 1809. Para combatê-los, em 1810 criou-se um batalhão de artilharia miliciana, o que resultou na resultando na instalação de quartéis nas regiões de conflitos, entre eles, o de Aldeia Velha e o de Quartel de Riacho, em Aracuz (Coutinho;2006, p. 154, vol I)
Os Botucudo ferozes e sanguinários defenderam seu território durante por mais de um século, até serem totalmente exterminados em 1935, “quando da construção da Estrada de Ferro Vitória Minas” (Coutinho:2006, p. 152, vol I ),que foi privatizada recentemente , no Governo Fernando Henrique Cardoso, e que hoje pertence a maior multinacional brasileira – A Vale do Rio Doce. O seu território doado aos brancos e tomadas por fazendeiros e posseiros.
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Menino Guarani com a mãe (21/01/2011) |
Resquícios de etnias indígenas aculturadas são encontrados ainda hoje , no litoral do município como os Tupinimkim e Guarani; os descendentes da étnica dos Guarani são freqüentemente vistos vendendo produtos artesanais em barracas na beira da rodovia ,próximo a sua aldeia, em Santa Cruz. Um interessante documentário intitulado "Como a Noite Apareceu", foi feito com os indígenas Guarani Mybiá, da aldeia de Santa Cruz, pode ser visto na postagem MAIRA FURIOSO publicado neste blog.
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Produtos artesanais com a india Guarani (21/01/2011) |
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Barraca de venda produtos artesanais Guarani (21/01/2011), proximo Santa Cruz |
O NEGRO. No processo da constituição étnica brasileira, o negro, embora sem as mazelas que foram imputadas ao índios, teve uma importância maior para as elites nacionais e outros estamentos sociais. Na condição de mercadoria era um bom negócio para todos, não apenas para a oligarquia rural que massificava os seus serviços, mas também para a instituições religiosas e o cidadão branco abonado, que os utilizavam para serviços pessoais ou os arrendavam a outrem.
As primeiras levas de negros que chegaram ao Brasil, sobretudo em meados do século XVIII e durante até a metade do século XIX, se concentraram mais na região açucareira de Pernambuco e Bahia.
Entre as principais etnias desembarcas destacam-se dois grupos: os sudaneses e os bantos. Os primeiros viviam em territórios hoje denominados Nigéria, Benin e Togo,enquanto os segundos originários das regiões localizadas nos atuais Congo, Angola e Moçambique. Este grupo foi o que mais influencia exerceu sobre a cultura brasileira, tendo deixado marcas na música, na língua, na culinária etc. (Grandes Religiões 6. Cultos Afros, História Viva, p.8)
Segundo Coutinho (2006: 142, vol. I) é difícil saber a chegada e a origem dos negros no território do atual Município de Aracruz. Para ele podem ter vindo de São Mateus e Serra e, nesse caso, seriam Negros-Angolas ou Negros-Congos.
Informa-nos, também que a presença de negros em Aracruz está associada a de algum engenho de açúcar ou à agricultura de modo geral. O botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, ao passar por Aldeia Velha, em 1818, informa a existência de negros trabalhando na fabricação de farinha.
Desde a nossa Independência , em 1822, crescia o clamor mundial pelo fim do trafico negreiro no mundo , encabeçada pela Inglaterra, deixou em polvorosa os importadores e a oligarquia rural brasileira , preocupados com a substituição do trabalhador escravo pelo trabalhador livre.
O Brasil foi o último país do mundo a acabar que a escravidão, chegando a ser comparado em situação semelhante à de Roma Antiga. Apesar de ter assumido o compromisso de eliminar o tráfico negreiro a partir de 1830, conforme compromisso assinado por D. João VI , no Tratado de Comercio e Navegação de 1810, com a Inglaterra, mas o não cumpriu em nenhum momento.
O tráfico negreiro corria solto, burlando a vigilância marítima inglesa, até sua proibição definitiva em 1850. Conforme pesquisa efetuada por Coutinho (2006: 143, vol I), com base na historiadora Maria Stella de Novaes, assinala que no Espírito Santo, desde 1836, os comerciantes do tráfico da Província já ludibriavam a vigilância inglesa, buscando os locais mais cômodos para “o desembarque (de escravos)” , como Santa Cruz.
“... ainda em 1840, o brigue “Feliz Venture” desovava em Santa Cruz grande número de infelizes! Foram levados para a fazenda ( das Palmas, certamente já de Pietro Tabachi) que, depois pertenceria ao Dr. Guaraná, e guardados num grande depósito, para esses comércio” ( Coutinho apud Maria Stella de Novaes, 1963:84)
A proibição definitiva do tráfico só ocorreria depois dos sérios e contínuos prejuízos causados pela captura e prisão de navios negreiros brasileiros pela frota inglesa.
O filme Mauá - O Imperador e o Rei, de Sérgio Rezende, retrata bem as atitudes das elites do Império diante desse fato e como elas se comportaram posteriormente. O ator Paulo Betti faz o papel principal – o Barão de Mauá.
Em uma passagem do filme, o capitão de um navio informa que teve que jogar os escravos ao mar, para evitar a prisão da embarcação, notícia que deixa o comerciante importador em prantos, diante da sua falência iminente em razão dessa “catástrofe”. Essa situação força as elites nacionais a aplicarem o capital em outras áreas, causando o efeito industrialização desencadeado por Mauá, com o País despertando para a capitalismo industrial, onde a mão-de-obra livre era condição sine qua non para o seu avanço. Mauá enfrentou grande desafio e batendo de frente com a oligarquia imperial, o que resultou na sua falência em 1878. Mas ele já tinha lançado a semente para que uma elite cosmopolita emergisse, que entra em ação, provocando os movimentos abolicionista em todo País.
Com abolição colocada em pauta, nossos latifundiários reagiram diante da iminência dela, e como de costume, subsidiados pelo Estado, desencadearam uma ”grande imigração”, entre 1870 a 1930, para a substituição dos escravos pelos trabalhadores livres. Mais de 3 milhões de pessoas de várias partes do mundo se dirigiram ao Brasil em busca de oportunidades, segundo assinala Nova História, ano 2, no. 24, 10/05, p. 12.
Em relação aos negros aracruzenses nos conta Coutinho que “ convivendo num local onde a escola era mais valorizada, os negros de Aracruz acabaram alcançando proeminência entre os oriundi ítalo-brasileiros (Coutinho,2006: 495-496, vol II). Muitos deles são hoje eminentes profissionais liberais no município.
Fazendo uma reflexão final sobre os mitos e fatos do sistema brasileiro de rações raciais, podemos recorrer ao artigo intitulado “O Mulato, um obstáculo epistemológico”, publicada na revista Argumento (no. 1, no.3, jan/1974, p. 66-67), Eduardo de Oliveira e Oliveira, no qual, citando Florestan Fernandes, o autor observa que tolerância não é igualdade no que diz respeito às relações raciais, que o papel atribuído ao mulato é reduzir o descontentamento entre as raças, porque os “descendentes mestiços entre nós não nós não são brancos nem pretos, este fato por si encoraja o “branqueamento” pela mistura racial.
“Assim o negro no Brasil pode esperar que seus filhos sejam capazes de furar as barreiras que o mantiveram para trás, caso ele se case com gente mais clara. Tal possibilidade real atua como válvula de segurança sobre o descontentamento e frustração entre negros e mulatos, razão pela qual os negros no Brasil não foram levados a formar organizações de protesto, como nos Estados Unidos”.
Ola, busco informações sobre a família Rangel. A avó do me marido se chamava Ana Conceição Rangel. Voce tem alguma informação sobre ela?
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